12.7.05

 

Um Conflito de Tipo Novo

O recente atentado de Londres obriga-nos mais uma vez a tecer múltiplos comentários acerca do seu significado e das supostas adequadas maneiras de lidar com o fenómeno do «terrorismo islâmico».

Desde logo, há quem conteste a expressão «terrorismo islâmico», na tentativa de salvaguardar uma crença religiosa da conotação nociva do terrorismo.

Invocam alguns estudiosos do islamismo a sua putativa mensagem pacifista e convivencial, para imputar o terror a grupos de extremistas,fundamentalistas, ainda que de motivação religiosa islâmica, mas degenerados, na apologia da violência em que reiteradamente insistem.

Porém, o pacifismo e a tolerância do Islão são coisas difíceis de lobrigar, de qualquer ângulo em que nos coloquemos, quer nos países islâmicos, quer fora deles, nos diversos sítios onde se têm estabelecido comunidades islâmicas. Com efeito, raramente se encontra, no mundo islâmico, condenação clara, prontamente emitida, dos actos de terrorismo cometidos por elementos de crença muçulmana.

Pelo contrário, muitas vezes assiste-se a uma tentavia de abordagem dos factores explicativos da sua ocorrência, na prática, desresponsabilizante ou grandemente atenuadora da condenação que deveria surgir firme, inequívoca.

Em todo o mundo muçulmano, com algumas variações de intensidade, o ambiente cultural que se respira é muito diverso daquele que no ocidente estamos habituados a identificar como típico de sociedades modernas, tolerantes e convivenciais.

Acresce que o facto de o poder espiritual no Islão viver entrelaçado com o temporal dificulta extraordinariamente o processo de modernização das suas sociedades. Note-se que tal facto, no Ocidente, começou a desaparecer ainda na Alta Idade Média.

Não obstante, o pensamento ocidental «politicamente correcto» teme fazer comparações e muito menos, com base nelas, estabelecer diferenciações qualitativas, na presunção de que assim promoverá a harmonia e o entendimento entre as diversas culturas ou civilizações.

A confusão intelectual que este tipo de pensamento origina é hoje responsável por uma série de equívocos que obnubilam o espírito de muita gente em todo mundo, de tal forma que uma catadupa de preconceitos se tem acumulado na chamada mentalidade moderna ocidental.

A evidente superioridade científica do «mundo ocidental», passe a imprecisão da designação, talvez fosse mais apropriada a de mundo ou mentalidade euro-americano(a), tem levado os seus membros a descurar a defesa da base cultural e espiritual dessa superioridade e, em correspondência, a abandonar o propósito combativo que aqueles antes revelaram, quando se tratou de a atingir.

Desde o Renascimento que a mentalidade ocidental, influenciada pelo espírito científico nascente, emergiu e se impôs por todo o mundo, forjando sociedades mais habilitadas na produção de instrumentos científicos e tecnológicos que continuamente reforçaram esse mesmo domínio.

Em consequência, acabou por desenvolver-se no Ocidente uma mentalidade aberta à inovação, que se tem habituado a conviver com as diferenças, criando por isso sociedades com maior abundância de bens materiais e culturais, nas quais existe uma relativa tolerância cultural, moral e espiritual que permite a convivência pacífica das diversas sensibilidades presentes.

Afirmar isto parece-me um truísmo, sem sentimentos de desafeição por ninguém. Trata-se de uma mera verificação da realidade. Foi assim que se deu, pela evolução conhecida dos factos históricos.

Os membros destas sociedades mais tolerantes, progressivas, modernas, os ocidentais euro-americanos, foram agindo progressivamente neglicenciando a base de valores que lhes permitiu alcançar uma situação vantajosa no confronto, nem sempre pacífico, por vezes mesmo conflituoso, com outras civilizações geradoras de diferentes modos de vida e de mentalidade.

Deram por adquiridas coisas que estão longe de o ser, justamente porque contestadas pelos que da sua feitura não participaram ou até a ela se opuseram.

O aparecimento fulgurante, na cena internacional, do fundamentalismo islâmico, com a revolução iraniana, em 1979, saudada equivocadamente por alguns no Ocidente, pensando tratar-se de uma libertação popular da ditadura do Xá Reza Pahlevi, veio incomodar uma certa modorra em que o mundo ocidental havia caído. Esta quebra de combatividade agravar-se-ia ainda com a surpreendente facilidade com que ele viu ruir o mundo comunista em 1989 e anos seguintes.

Todavia, nenhuma civilização é eterna, estando sempre sujeita a degradações ou degenerações, por acção agressiva externa ou por simples incúria interna dos seus próprios membros.

Desaparecida a emulação comunista, eis que surgiu outra, menos consistente, do ponto de vista ideológico, menos atraente para os ocidentais, mas mais letal, porque desesperada nos seus propósitos violentos, potenciados pelo fanatismo religioso, que fomenta o martírio glorificador dos seus prosélitos.

Esta outra emulação, assente agora no fundamentalismo islâmico agressivo, representa um perigo de tipo novo, constituindo fenómeno que alguns demoram em identificar e em perceber, tal como se passou com muitos bons democratas relativamente ao vírus do nazismo, nas décadas 20/30 do século passado.

Por falta de compreensão oportuna do fenómeno, por parte das democracias europeias, houve que travar uma guerra feroz contra a loucura nazi, na Europa, e contra o fanatismo expansionista nipónico, na Ásia, em ambas as frentes, todavia, com a ajuda decisiva dos Americanos, que transformaram depois em protagonismo político o sangue vertido nas praias, planícies e matas europeias e nas muitas ilhas do Pacífico em que se enfrentaram com inimigos fortes e determinados, dispostos a lutar até à morte, às vezes pela posse de minúsculos territórios.

Radica aqui, a meu ver, a preponderância política actual dos Americanos, em tudo o que respeita à Comunidade Internacional. Convém ter isto presente quando se critica, às vezes com inteira razão, note-se, os Americanos, pese, contudo, a conta em que se tenha a categoria da sua orientação presente.

O facto de os EUA terem vindo à Europa combater pela sobrevivência dos regimes democráticos, nos dois magnos conflitos do século xx, deu-lhes, obviamente, uma legitimidade natural na discussão da política internacional, nos anos sequentes à segunda guerra mundial e tão bem a aproveitaram que, ainda hoje, intervêm na política europeia, incluindo pela via militar, como se verificou na Guerra da Jugoslávia, em 1999.

Nisto agem como assumida Superpotência, quase indisputada nos tempos actuais, como sempre fizeram os passados impérios, quando a oportunidade de domínio de extensos territórios se lhes apresentou.

Cabe aos seus interlocutores, União Europeia, Rússia e China, principalmente, levá-los, aos EUA, a conter a sua ambição dentro de moldes razoáveis, sem abusar das suas prerrogativas actuais de superpotência de recorte majestático.

A busca de uma ordem internacional justa, equilibrada e segura implica o respeito pelos direitos e aspirações de cada um dos membros da alargada Comunidade Internacional, sem abusos, nem caprichos, ditados pelos interesses dos mais fortes.

O actual ambiente mundial, fortemente perturbado por intervenções militares contestadas, sob chantagens várias, permanentes, designadamente, com o aumento constante do preço do petróleo, torna bastante difícil o combate ao terrorismo político, sobretudo, quando este retira a sua força de uma funda motivação religiosa.

No presente, o Islão vive convulsionado pela proliferação de seitas religiosas fundamentalistas, que recrutam voluntários por toda a parte, até no seio do seu visado inimigo, capazes de realizar actos de alto poder destrutivo, como já o demonstraram à saciedade, para convencimento dos mais ingénuos.

Pode muito bem dizer-se que o islamismo fundamentalista representa, na actualidade, para o ocidente de base cultural cristã, um inimigo, um perigo de tipo novo, animado de uma volição combativa, de uma forma como antes raras vezes se mostrou, talvez só nos primórdios da sua expansão, para fora da Península Arábica, no distantes séculos VII e VIII. Quem se recusar a reconhecer isto, hoje, vive fora do mundo real e nunca compreenderá a natureza do conflito em que está mergulhado.

Todo o mundo muçulmano vive actualmente imerso numa mentalidade, que nós outros podemos classificar de obscurantista, muito distante da que prevalece no Ocidente, eivada de sentimentos de inveja, recriminação e ódio, concretizando tais sentimentos, sempre que encontra uma brecha na parede de segurança com que a mentalidade ocidental se pretende proteger.

Neste enquadramento moral, espiritual e cultural, é muito árduo, se não mesmo impossível, imprimir qualquer evolução positiva no Islão. Se este não se libertar das peias espirituais que o tolhem há séculos, não se vê como se há-de com ele viver em harmonia. Se o Islão continuar a consentir, nas suas sociedades, a promiscuidade entre a esfera civil e a religiosa, dificilmente se libertará do ciclo decadente em que há muito caiu.

Por outro lado, se o ocidente de fundo cultural cristão persistir, na sua falta de visão, na apreciação dos conflitos actuais, em especial com o Islão, pode vir a comprometer gravemente o futuro da própria civilização, sem mais.

A luta contra o terrorismo islâmico está para durar e a mera superioridade científica, tecnológica e até moral não garantem vitória nenhuma. Não seria a primeira vez na História que um tipo de civilização considerada mais avançada sucumbiria perante outra muito menos apetrechada, mas animada de uma força espiritual superior, inquebrantável.

O Ocidente tem dado mostra de enorme cegueira, por um lado e de franca tibieza, por outro, na luta que o Islão lhe vem inflingindo. Um feixe de preconceitos o tem inibido de adoptar comportamentos e atitudes correctos, ajustados, perante a ameaça de feição terrorista que os fundamentalistas islâmicos sobre ele têm feito cair.

Problemas como a baixa taxa de natalidade das nações europeias, a concessão indiscriminada, durante largo tempo, da nacionalidade a populações exógenas, sem nenhum desejo de aproximação cultural com as comunidades de acolhimento, a incapacidade de os actuais sistemas de ensino continuarem a formar cidadãos com identidade definida, etc., etc., conduzem à formação, dentro do mesmo espaço físico, de autênticas nações antagónicas entre si, sem sentido de pertença comum a uma cultura ou a um ideário, sem sentimentos de solidariedade, elementos que tradicionalmente enformaram as primitivas nações europeias.

Todos estes factores de perturbação geram o caldo cultural propício à explosão de futuros conflitos permanentes e insanáveis, que as diferentes taxas de natalidade das comunidades envolvidas acabarão por precipitar, se não houver, por parte dos responsáveis europeus, prevenção avisada dos perigos que sobre as suas sociedades impendem, quais espadas de Dâmocles às suas cabeças apontadas.

Agir num quadro tão perigosamente delicado exige clarividência de espírito e forte determinação na acção, duas características que se tornaram escassas nas nossas comunidades europeias, na sua maioria, entregues a lideranças frágeis, falhas de visão e de carácter, muito longe do nível das conhecidas logo a seguir à Segunda Guerra Mundial e que estiveram na base da criação da actual União Europeia.

O futuro mostra-se, por conseguinte, deveras problemático e nos anos mais próximos irão certamente passar-se factos importantes, decisivos, para o êxito da convivência harmoniosa entre as diversas comunidades que vivem no seio da União Europeia.

Oxalá venhamos a estar todos à altura dos desafios que então se hão-de colocar, em primeiro lugar, os nossos putativos mais altos representantes políticos. Da sua capacidade de enfrentar as situações complexas que a actual conjuntura estará a incubar depende o futuro da política convivencial da nossa almejada União Europeia.

Voltaremos certamente ao assunto.

Spes ultima dea / A esperança é a última deusa.

Spes vitae cum sole redit / A esperança da vida renasce com o sol.


AV_Lisboa, 12 de Julho de 2005

Comments:
Amigo
Uma bela revisão da história recente, apesar do triste episódio que levou a esta reflexão, onde todos nós nos sentimos como um possível alvo vivo dos terroristas. Tristes ocorrências com as quais somos obrigados a conviver!
Um abraço
 
Apenas para nos atermos à História Ocidental, quando Toledo era capital da Espanha, dominada pelos islâmicos, havia total liberdade religiosa para islâmicos, judeus e católicos; a intolerância veio com o domínio católico.
Na própria Palestina, antes da criação do Estado de Israel, hebreus, árabes e palestinos conviviam em paz.
É muito difícil para um líder islâmico condenar veemente os atos contra população civil (eu sou contra) no Ocidente quando a população civil de cidades árabes e palestinas tem sido submetida a atos de terrorismo e até de genocídio.
Se nós, ocidentais, demonstrássemos o mesmo horror aos atos de terror impostos pelas potências ocidentais e pelo sionismo, certamente cooperaríamos para debelar a violência, pois "violência gera violência".
 
Respondendo ao seu comentário.
Embora haja problemas de corrupção e outros, o problema fundamental é o próprio modelo econômico, primário exportador, o qual gera uma crescente concentração de riquezas além de uma desnacionalização do controle da mesma, com conseqüente exclusão de cada vez maiores parcelas do nosso povo.
É tão cruel que o capitalismo, no caso brasileiro, é chamado, pelos próprios defensores do capitalismo, de capitalismo selvagem.
O neoliberalismo só acentuou estas contradições fundamentais.
 
Naturalmente, é um problema complexo, necessitando de uma máxima colaboração entre todos os povos para chegar-se a uma solução conciliadora.
São duas culturas diferentes, a islamica e ocidental, mas com sentido de responsabilidade e muita diplomacia poderá lentamente haver progressos.
O importante é não cair em tentações de julgamentos fáceis, porque assim estaremos a cavar um fosso maior.
Gostei muito do artigo!
Um abraço
António
 
um lúcido e corajoso artigo, meu amigo. recomendo que leias os últimos escritos da jornalista italiana Orianna Fallaci e também do americano Jeffrey Niquisty.infelismente aqui no meu querido Brasil tais escritores são sonegados e ficamos com uma visão incompleta da realidade islâmica, aqui a "verdade" é mostrada apenas em coisas como o ridículo filme "Cruzada" e em escritores parciais como Eduard Said. grande abraço do seu amigo. Carlos(www.basilides.blogger.com.br)
 
Passei para desejar a todos um FELIZ DIA DO AMIGO
 
António Viriato
Não te esqueças de efectuar uma visita ao "Palavra Entre Palavras".
A tua opinião é importante para irmos evoluindo um pouco!
Um grande abraço,
António
 
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